terça-feira, 2 de outubro de 2012

Lenda da Moura de Faro

Lenda da Moura de Faro


Esta lenda encontra-se associada à tomada de faro aos Mouros. Conta a


história de uma moura encantada, filha de um governador mouro, que se


apaixonou por um cavaleiro do exército cristão, encarregado de dirigir o


exército. Devido a isso, a moura e o pequeno irmão de oito anos que a


acompanhava, foram acusados de traição por seu pai e por isso enfeitiçados e


condenados a ficar para sempre naquele local até ao fim do mundo. Mais


pormenorizadamente, segue-se a transcrição desta lenda, contada por


Francisco Xavier d ´Ataíde Oliveira, no seu livro “ As Mouras Encantadas e os


Encantamentos do Algarve”.


“Parte das forças, que atacaram o castelo de Faro, foram colocadas no largo


atualmente chamado de S. Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso


oficial, robusto e formoso rapaz, solteiro. Este oficial pôde ver em certa ocasião a


formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado. A presença


agradável e o aspeto belicoso do nosso oficial não passaram despercebidos à moura,


e esta, em breve tempo, estava em relações amorosas com o valente oficial, por


intermédio de um seu escravo, também mouro, e que conhecia perfeitamente as


línguas portuguesa e sarracena.


Em certo dia conseguiu o oficiai que a sua namorada o recebesse em curto rendezvous


dentro do castelo, combinando-se que o mouro intermediário lhe abrisse, alta


noite, a porta, hoje da Senhora do Repouso. Antes da noite dirigiu-se o oficial a alguns


dos seus camaradas e disse-lhes:


- Espero entrar esta noite dentro do castelo pela porta do nascente. Se não voltar,


depois de pequena demora, é porque caí num laço bem urdido; e então peço-lhes que


se o castelo for tomado e lhes venha às mãos a filha do governador a poupem e a não


maltratem. Certamente ela não contribuiria para tal traição.


Prometeram-lhe os camaradas cumprir as suas ordens, depois que reconheceram a


impossibilidade de o demover da sua empresa.


Á hora marcada entrou o oficial no castelo e ai em doce colóquio se entreteve com a


dama dos seus encantos. Á hora de sair, acompanhou ela o seu querido namorado até


à porta do castelo, levando consigo um irmão, criança de oito anos.


Quando se aproximaram da porta, disse-lhes o escravo, que da parte de fora estava


muita gente, pois que mais de uma vez lhes chegavam aos ouvidos vozes abafadas. A
gentil moura estremeceu.

— Não tenhas medo: respondo pelos que estão de fora, disse o oficial á moura,

dando-lhe o beijo da despedida.

Neste momento o criado destrancou a porta, fazendo pequeno ruído. Então foi a porta

impelida de fora para dentro com muita força e um grupo de soldados cristãos, numa

vozearia de estontear, começou a gritar pelo seu oficial. A este impulso gigantesco, o

oficial recuou um passo e susteve nos braços a sua gentil moura, colocando-a sobre

os ombros e dizendo em voz alta:

— Para trás, para trás: estou aqui.

Já a este tempo soava por todo o castelo a voz de alarme. Armados até aos dentes

afluíram os defensores á porta do nascente. O oficial, segurando nos braços a moura

gentil, viu-se em iminente perigo. Avançou para fora com a moura, e, quase ao

transpor a porta, hoje conhecida pela Senhora do Repouso, notou que tinha nos

braços não uma formosa jovem, mas apenas uns farrapos, que se desfaziam à mais

pequena e leve aragem. Olhou ao lado pela criancinha e não a viu. Então teve a

profunda e tristíssima compreensão da sua desgraça. Caiu no chão sem sentidos.

Passadas horas tornou a si o oficial e viu-se deitado na sua cama sob a barraca de

campanha. Tinha ao seu lado um camarada, de quem era amigo íntimo.

— Quem me trouxe para este lugar? Perguntou.

— Não fales porque te faz mal. O físico proibiu que falasses.

— Eu estou bom, disse o oficial, erguendo-se de um salto. Quem me conduziu para

aqui?

— Eu e os nossos camaradas. Eslavas caído entre a porta do castelo.

— E a filha do governador?

O amigo nada lhe soube dizer da filha do governador. Contou-lhe que, tendo esperado

com alguns camaradas a sua saída do castelo, tinham resolvido entrar à força,

supondo que o teriam morto, e que o governador ousado acudira com suas numerosas

forças a rechaçaram a pequena força portuguesa. Nesse momento acudiram as forças

do Mestre e de D. João de Aboim e os mouros tinham sido forçados a entregar o

castelo, mediante uma avença com o Rei D. Afonso.

O oficial saiu da barraca e pediu ao amigo que o deixasse. Dirigiu-se á porta do

castelo. Ao entrar pelo Arco da Senhora do Repouso viu ao lado esquerdo a cabeça

de uma criança que se assomava por um buraco.

— O que fazes aí, menino? perguntou o oficial, conhecendo o irmão da sua namorada.

— Estamos aqui encantados: eu e minha irmã.

— Quem vos encantou?

— O nosso pai. Soube por uma espia que levavas nos braços a minha irmã

acompanhada por mim, e, invocando Allah, encantou-nos aqui, no momento em que

transpunhas a porta. Por atraiçoarmos a santa causa do nosso Allah aqui ficaremos

encantados.

— Por muito tempo?
— Enquanto o mundo for mundo.


O oficial, um valente, não pôde suster as lágrimas. Quis ainda perguntar á criança pela


irmã, mas a criança desaparecera.


Nunca mais ninguém viu o oficial rir. Terminado o cerco, pediu licença ao Rei e


recolheu-se a um convento, onde professou, adotando outro nome.”


(Francisco Xavier d´Ataíde Oliveira, As Mouras Encantadas e os Encantamentos no


Algarve, Loulé, 1996, pp. 148-150)
 
Retirado de: DEPARTAMENTO DE CULTURA

DIVISÃO DE MUSEUS, ARQUEOLOGIA E RESTAURO

Mitos, Crenças e Superstições no Concelho de Faro

Fernanda Zacarias (2011)